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Trinta por uma linha

Os ossos do Ócio

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Faço de tudo para ser uma pessoa pró-ativa. Os meus dias são preenchidos, equilibrados e diversificados. Tenho o meu trabalho no qual me empenho e tento ser melhor a cada dia que passa, para não desiludir quem tenho à minha frente, tenho a minha família com quem não tento nunca falhar e depois tenho as minhas atividades que preenchem o resto do meu dia. Assim, tento praticar exercício três vezes por semana, corro à volta de seis quilómetros agora no inverno. Não vou dizer que corro por gosto. Estaria a mentir se o fizesse. Corro porque me faz sentir bem e porque adoro a sensação de terminar mais uma corrida e ter atingido mais um objetivo. De seguida, o aconchego de um banho bem quente e o relaxamento que sinto depois também ajudam a que, no dia a seguir, queira repetir. Além disso, ainda que seja recente, tento escrever diariamente neste meu novo diário dos tempos modernos e acompanho os posts dos meus colegas bloggers. Não sobra muito tempo, mas ainda tento ver umas séries e namorar um bocadinho. Os dias são cheios e a cama sabe bem quando lá chego. 

No entanto, há dias em que sinto um torpor a nascer dentro de mim e não me apetece fazer rigorosamente nada. As horas custam a passar, as aulas, por mais que me esforce não rendem e a corrida desse dia ainda custa mais a fazer. Nessas alturas, acredito que é a minha costela diletante a dar sinal de si. Só me apetece ficar no sofá, ver dez episódios seguidos de uma série qualquer, jogar mais cinco horas de playstation, ouvir música e ler. No fim, ver dois jogo de futebol seguidos e fazer meia dúzia de apostas.Passei alguns anos assim, em que isto é que era um dia em condições, isto era o que eu gostava de fazer. E sentia-me bem a fazê-lo. 

Hoje em dia, não é assim. Até porque não mo posso permitir, há contas para pagar, há uma esposa para manter feliz. 

Então, quando me começo a sentir assim meio dormente, a não querer fazer nada e o tempo a custar a passar, encho-me de coragem, ouço duas ou três rockalhadas da minha juventude e ponho o dobro de mim em tudo o que faço: trabalho, casa, corrida, escrita... E espero que passe.

Coisas da vida

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Há, na nossa vida, muitas coisas que não gostamos, o ter de levantar cedo para ir trabalhar, o próprio facto de ter de trabalhar, a insolência de alguns alunos, a impaciência da nossa esposa quando não arrumamos a loiça ou deixamos a cama por fazer... Noutra dimensão, não gostamos quando nos tratam injustamente, ou quando interpretam mal as nossas boas intenções, quando não se apercebem do nosso valor ou quando todos os nossos esforços foram em vão. Por outro lado, por vezes sofremos para lá do suportável quando perdemos alguém querido ou quando um amigo ou familiar padece de uma qualquer doença grave. De uma forma muito resumida, detestamos quando as coisas não correm como queremos. Ainda assim, por mais que nos esforcemos, por mais que queiramos e por mais que desejemos, sempre vão acontecer coisas menos boas na nossa vida. Eu, por exemplo, adorava que a minha escrita não fosse tão perifrástica, mas não há nada a fazer, é mais forte que eu. Uma batalha perdida. 

É mesmo disso que hoje estou a falar, de batalhas perdidas. Todos já as tivemos, todos ainda as teremos. E não há como evitar. 

Ora esse é mesmo o primeiro passo a dar. Reconhecermos essa nossa fraqueza, a de ser impossível ganhar todas as batalhas, sabermos que a perfeição será sempre inatingível e de que o sofrimento, de uma forma ou de outra, com mais ou menos intensidade, fará parte de nossa vida. Aceitando esse facto como incontornável, o passo seguinte passará pela forma como optámos por lidar com esse assunto. Podemos, por um lado, perpetuar o sofrimento tentando lutar contra ele, não o aceitando, ou podemos escolher por escrever perpetuamente no muro das lamentações o quanto somos miseráveis. Podemos, por outro lado, escolher o caminho oposto, o de abraçar o sofrimento e, sabendo que faz parte, olhar em frente e darmos o nosso melhor nas nossas vidas, mesmo com essas inoportunas limitações que esse sofrimento nos traz. Se não há nada que possamos fazer para o evitar, só nos resta aceitar quando este chegar e, de seguida, dar o melhor de nós para que a vida continue a acontecer. É difícil? É. Custa sofrer? Custa. Mas, se aceitarmos que esses momentos menos bons fazem parte da vida, é meio caminho andado para que eles nos fortaleçam em vez de nos enfraquecerem. 

Outra das coisas que teimamos em fazer, principalmente quando atravessamos uma dessas marés negras, é ignorar tudo o que de bom temos e nos rodeia. Teimamos em sobrevalorizar o que nos acontece de mau e esquecer as nossas riquezas. Se pararmos um pouco e pensarmos em tudo aquilo que temos na vida e que reconhecemos ser importantíssimo para nós, vamos chegar à conclusão que vale a pena aguentar um dia, um mês ou um ano menos bom para poder usufruir daquilo de que tanto gostamos e de todo o restante conjunto de coisas boas que a vida ainda tem para nos dar. 

Para vos dar o meu exemplo, sempre que tenho um dia em que, por qualquer motivo, acordo de mau humor, só me apetece mandar dar uma volta quem me aparece à frente e aparecer com testes surpresa aos meus alunos, paro, respiro fundo e lembro-me que, no fim desse dia, me vou deitar ao lado de quem amo, vou ter oportunidade de ouvir como foi o seu dia, de sentir as suas mãos geladas a tentarem aquecer-se na minha barriga e eu quase a entrar em estado de hipotremia, tudo se torna mais fácil de suportar e o dia volta a ficar iluminado. Nesses momentos, agradeço, apesar de tudo o que de menos bom há em mim, a felicidade de amar e ser amado, de ter um lar em que me sinto em casa, de ter uma família unida e que está sempre presente e de ter um novo dia à minha espera para que tudo possa começar de novo.

Da arte e outros prazeres

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Há algum tempo atrás, ao visitar uma exposição de quadros, vi-me envolvido por um rodopio de sensações que só a arte, e um conjunto restrito de outras coisas, consegue transmitir. Não resisti, e deixei uma pequena nota ao autor dos referidos quadros. Transcrevo aqui essa nota, porque traduz ,de certa forma, a minha maneira de ver e estar na arte:


"A pintura é uma poesia que se vê e não se sente e a poesia é uma pintura que se sente e não se vê."

Com este meu gosto pelas letras que tudo contam e nada dizem, não resisti a este ilustre dito vindo do mestre que foi e ainda é, Da Vinci. Na verdade, não há muito para dizer. Há, isso sim, muito para sentir; os olhos, mal educados, nunca foram bons a falar. De peito feito e coração bem aberto, todas as cores terão um significado, todos os traços serão inconstantemente lineares, todos os tons falarão por si. Daí eu me ter sentido obrigado a referir a poesia, essa irmã gémea da pintura. Ambas, de mão dada, caminham em direcção ao infinito, guiadas pela musicalidade, em busca da perfeição. E é isto que deve guiar a nossa vida, a perfeição, a música, os devaneios do infinito. Só assim somos verdadeiros seres humanos.
O ideal espera por nós, temos que iniciar a procura. Pela sonoridade, pela tonalidade, pelo sabor, um dia lá chegaremos. E nunca, como Ícaro, cairemos. As nossas asas não são feitas de cera.
 
 
Este texto foi escrito por mim há cerca de dez anos, um período em que estava sob forte influência do Romantismo. Muito mudou, já não acredito em ideiais e perfeições, mas continuo a afirmar que não podemos deixar de os procurar, pois é isso que dá sabor (e muitas vezes insatisfação) aos nossos dias! Só assim não estagnaremos e evoluiremos para seres não perfeitos, mas consistentemente melhores.

Ainda a propósito da ambição

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Quem me acompanha sabe que sou um distraído de primeira. Perco chaves facilmente, engano-me nas salas de aula, esqueço-me do telemóvel, deixo o guarda-chuva na escola, esqueço-me de pagar o café. Tudo isto tem uma explicação muito simples, a minha mente anda sempre a mil, não consigo pensar devagar, nem pensar como quero, nem no que quero. O meu pensamento, talvez como o de toda a gente, é extremamente rebelde, não me obedece e faz o contrário do que eu quero. Penso muito em muita coisa ao mesmo tempo e estou constantemente a fazer associações e conclusões, muitas delas precipitadas.

Num desses momentos, em que estava a tentar relaxar com um pouco de música no spotify, dei de caras com uma música que vai, de certa forma, ao encontro do post que fiz sobre a ambição desmedida. Fez-se logo a ligação no pensamento e tive de escrever isto para o sossegar. Talvez a música represente até o outro extremo do que critiquei no outro post, mas não quis deixar passar em claro e, porque adorei a mensagem e a musicalidade, quis partilhar, letra e música.

 

Quero a vida pacata que acata o destino, sem desatino
Sem birra nem moça que só coça quando lhe da comichão
E á frente uma estrada não muito encurvada, atras a carroça
Grande e grossa que eu possa arrastar sem fazer pó no chão

E já agora a gravata com um nó que me ate, bem o pescoço
Para que o tremoço, almoço e o alvoroço demorem a entrar
Quero ter um sofá e no peito um crachá quero ser funcionário
Com um cargo honorário, carga de horário, conta picada

Vou dizer que sim ser assim a sim assinar a rir readers digest
Ágeis de sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel, filhos fado anel e lua de mel
Em frança abranda na dança
Descansado ate ao fim

Quero ter um T1 ter um cão e um gato e um fato escuro
Barbear o rosto pagar o imposto estou disposto a tanto
Quem sabe a miúde brindar a saúde com um copo de vinho
Saudar o vizinho acender uma vela, ao santo

Quero vida pacata, pataca gravada, sapato barato
Basta na boca uma sopa com pão, com cupão de desconto
Emprego sossego renego chamego e faço de conta
Fato janota gota na conta e nota de conta

Vou dizer que sim ser assim a sim assinar a rir readers digest
Ágeis de sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel filhos fado anel e lua de mel
Em frança abranda na dança
Descansado ate ao fim

Vou dizer que sim ser assim a sim assinar a rir readers digest
Ágeis de sonho que desde rebento acalento em mim
Ter mulher fiel filhos fado anel e lua de mel
Em frança abranda na dança
Descansado ate ao fim
 

 

 
 

A nós, o que de nós depende

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Costumo dizer em conversa com amigos mais próximos que devemos ser das primeiras gerações que tem uma qualidade de vida inferior à sua geração anterior. Os nossos pais, na sua maioria, têm melhores empregos, melhores horários e, por isso, uma vida mais descansada e menos stressante. Se pegarmos no exemplo de um jovem de 23 anos, acabadinho de sair da universidade com um curso qualquer (à exceção de medicina que apenas confirma a regra), sabemos que o mais certo é que, se esse jovem tiver mesmo de trabalhar por imperativos económicos ou de qualquer outra ordem, ele terá de aceitar um emprego fora da sua área, com mais horas do que aquelas que são previstas por lei e vai ganhar algo inferior ao salário mínimo. A juntar a isto tudo, sabe que terá de arranjar um ou dois part times para ganhar o suficente para fazer face às suas despesas. Esse mesmo jovem sabe também, e, se não souber, alguém o há-de relembrar todos os dias, que se ele não quiser esse trabalho, não falta quem esteja desejoso de o ter. 

Eu próprio tenho este tipo de conversas com o meu pai e quando lhe conto algumas situações práticas do que realmente se passa no mundo do trabalho, ele recusa-se a acreditar e afirma que isso são histórias e que não percebe como há alguém que oferece semelhantes condições aos seus empregados e espera que eles tenham um bom desempenho profissional. 

Isto para dizer que o meu pai e os pais dos meus amigos, que na sua generalidade não são licenciados, nunca tiveram de trabalhar horas a mais, nem acumular trabalhos para pagar as contas. Na cabeça deles, é impensável que um licenciado tenha de trabalhar mais e ganhar menos do que eles sempre ganharam.

O que é certo é que esta é a mais pura das verdades e que esse jovem, que usamos como exemplo, representa os milhares e milhares de recém-licenciados que todos os anos procuram emprego. 

A realidade parece um pouco sombria e ninguém nos augura, a nós jovens, nada de bom. Todavia, e contrariamente ao que possa parecer, este post não foi pensado para ser um lamento. Quando tive a ideia de o escrever, foi com uma intenção completamente diferente. Isto porque olho para estas dificuldades apenas como mais uma oportunidade para demonstrarmos o quão bons somos. Estou habituado a discutir este assunto com demasiada frequência e quem o discute comigo pode atestar a minha crença no que aqui digo e defendo. É certo que temos todas as razões para nos lamentarmos, mas se, ao invés disso, dermos o nosso melhor e cumprirmos todas as etapas que dependem de nós, mais tarde ou mais cedo seremos recompensados. Acreditem ou não, este raciocínio é, para mim, um axioma, um verdadeiro príncipio de vida. As probabilidades podem não estar a nosso favor, a nossa história pode não começar da melhor maneira, mas, ainda que saibamos que existem coisas que nos ultrapassam, se fizermos tudo o que de nós é esperado, se cumprirmos os requisitos com esmero e não deixarmos nada que dependa de nós por fazer, eu acredito, com a mais pura das inocências e com a mais forte das fés, que acabaremos por encontrar o nosso caminho, acabaremos por descobrir o nosso lugar e saberemos dar-lhe o seu devido valor. E aí a vitória será saborosa, será maravilhoso sentir que, no final, tudo realmente depende de nós, do nosso valor e da nossa força. 

Jeremias, o fora-da-lei

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Há músicas que conquistam a nossa empatia pela mensagem que transmitem, outras conquistam-nos pela beleza do seu instrumental, há ainda aquelas com as quais nos identificamos por falarem de determinado estado de espírito ou ponto de vista que partilhamos. No entanto, existem outras músicas, com que simpatizamos, não por nenhum dos motivos nomeados atrás, mas porque gostamos, sem saber bem porquê, dos personagens por elas trazidos e pela simbiose que eles criam com o instrumental que lhes serve de base.

No mundo da ficçção, sempre nutri uma especial empatia por aqueles criminosos e larápios que nos eram apresentados de uma forma quase poética pelos seus criadores. Como se a forma quase lírica com que eles nos eram apresentados nos fizesse gostar deles, mesmo que não aprovássemos o que eles faziam. Jeremias, o fora- da-lei de Jorge Palma, é um desses personagens. O produtor de bombas caseiras que as considerava eloquentes e que, ao contrário da maioria dos criminosos, não se sentia vítima da sociedade. Aquele que se vestia de negro, que gostava do quente da aguardente e da forma como os homens se engasgavam quando pronunciavam o seu nome. Jeremias ganha a nossa simpatia no imediato. Não pelo que representa, mas, uma vez mais, pela forma original como foi criado e pela criatividade com que nos foi apresentado. Eu gosto destes foras da lei, aqueles que só existem nos filmes e nas músicas.

 

"Deus nos dê muito e nos contente com pouco"

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Questiono-me inúmeras vezes por que razão nunca nos sentimos totalmente satisfeitos. Todos temos os nossos objetivos de vida, alguns de nós sabem muito bem onde querem chegar, mas, no final de contas, quando atingimos a meta, quando alcançamos o número redondo, quando chegamos ao emprego com que sempre sonhamos, parece que não é suficiente e, não tarda nada, estamos de novo a redefinir objetivos. Porque o que temos afinal não é suficiente, porque há sempre quem consiga chegar mais longe e porque nunca deixámos de sentir que, se nos esforçarmos, conseguiremos mais e melhor. 

Não raras vezes, dou comigo a refletir sobre esta situação e apercebo-me que raramente paramos para saborear o nosso sucesso. O nível de ambição é tão elevado, e temos sempre tantas expectativas sobre o que queremos para a nossa vida e para os que nos rodeiam, que, quando alcançamos algo que perseguíamos há muito tempo, nem sequer paramos para agradecer a quem nos ajudou a lá chegar, para refletir sobre o que permitiu que lá chegássemos. Não defendo que a ambição seja algo de negativo e com a qual devemos ter cuidado. Na verdade, tenho dificuldades em lidar com pessoas que não sabem o que querem, nem qual o rumo a dar à sua vida, esperando que lhes caia do céu tudo aquilo que eles vão necessitar. Tenho inclusive um amigo, com quem discuto acesamente este tipo de questões, que diz que vai viver à custa dos pais, até poder viver à custa dos filhos. Definitivamente, também não é esse tipo de pensamento que defendo. Mas, por outro lado, confesso que me preocupa esta constante insatisfação que encontro em mim e nas pessoas que me rodeiam, porque penso até que é algo que tem vindo a evoluir nos últimos anos. É certo que temos a nossa juventude cada vez mais perdida e com so seus horizontes cada vez mais desfocados, mas, por outro lado, temos uma faixa da população cuja ambição não tem limites e que não olha a meios para atingir os seus fins, não se importando de passar por cima de quem quer que seja para que chegar onde quer. 

Ao longo da minha infância e parte da juventude, recordo-me de ouvir a minha avó dizer muitas vezes "Deus nos dê muito e nos contente com pouco" e lembro-me também de não perceber o que ela queria dizer com aquilo. Agora sim, percebia onde ela queria chegar. Do fundo do seu saber de segunda classe, ela sabia que querermos em demasia nunca nos haveria de levar lado nenhum e com este dito, que tantas vezes me repetiu, ensinou-me mais do que muitos professores meus. Ensinou-me a ambicionar o essencial, a refrear os meus ímpetos de querer mais e mais. Repito essa frase muitas vezes para mim próprio e dou comigo a desejar o que toda a gente deseja, mas que para muitos não é suficiente: saúde, trabalho e acordar todos os dias ao lado de quem me faz feliz. 

O Lamento de Jimmy Olsen

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Quem me conhece sabe que sou um adepto fanático de banda desenhada e Super-heróis. Cresci a ler as mais recentes edições do Batman e do Superman e, quando se chegava o fim de semana, o meu pai já sabia que tinha de me levar ao clube de vídeo para eu poder alugar duas ou três cassetes vhs do Spiderman e do He-man. Cheguei até a criar uma paixoneta pela Mary Jane Watson, mas que esqueci rapidamente, por achar que estava a trair o Peter Parker. Com o passar do tempo, familiarizei-me com os universos da Marvel e da Dc Comics, decorando os Super-heróis respetivos.  Mais tarde, descobri o cinema e, desde aí, nunca mais perdi um filme de Super-heróis. Primeiro na companhia do meu pai, mais tarde com os meus amigos e depois com a namorada. Agora, como a esposa não gosta de violência, tive de voltar aos amigos. Tudo isto para dizer que nunca mais me consegui livrar da doença e ainda hoje tenho acesas discussões com os meus companheiros sobre quem é o mais forte dos heróis. 

 

Tudo o que disser respeito a este universo interessa-me principalmente pelo elevado poder significativo, criativo e metafórico que estas estórias encerram. Um dia destes, dei de caras com uma música portuguesa que curiosamente remetia para este mundo e de uma maneira extremamente original. Pelo que me apercebi, é uma música não muito conhecida e posso até confessar que instrumentalmente falando não é das que mais me atrai, no entanto tem por base uma ideia bastante original. Jimmy Olsen é o fotógrafo do Daily Planet, o jornal onde Clark Kent trabalha e é um dos seus melhores amigos. É também o seu principal confidente e admira-o bastante. No entanto, contrariamente ao seu amigo, Jimmy Olsen não possui nenhum superpoder. É um mero humano. Ora é especificamente essa dimensão que a música de João Só explora, O lamento de Jimmy Olsen que se compara constantemente a Clark Kent. Ele só tem uma supercapacidade, a de amar, mas simultaneamente é super-tímido e não consegue articular esse amor. 

 

Tenho um "S" no peito
Por ser tão sentimental
Mas também tenho uma capa
Que uso para disfarçar.
O amor que eu não consigo articular

 

Gosto destas intertextualidades e destes diálogos que se estabelecem entre as artes, e, no fundo, todos nós nos conseguimos rever, nem que sejá só em parte, nos lamentos de Jimmy Olsen.

 

 

O trono e o rabo que lá se senta

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Vivemos numa época em que se vê cada vez mais que são os respetivos postos e profissões que definem as pessoas aos olhos da sociedade, pondo-se de parte os valores e a integridade que marcam a sua conduta. Não é bem o nosso valor intrínseco como pessoa que conta, mas a nossa posição social e os nossos bens materiais. Ao pensar sobre isto, lembrei-me então de ter lido sobre uma situação algo caricata que se passou no século XVI, mas que, tendo em conta o nosso contexto social, poderia perfeitamente ter acontecido hoje. 

Em plena época de absolutismo régio, em que o rei era visto como descendente de Deus, não podendo, por isso, os seus poderes ou as suas decisões serem questionadas, o filósofo Montaigne escreveu, num dos seus ensaios, que "Mesmo no mais alto trono, é um rabo que se senta". Ao escrever algo assim, tendo em conta o poder incontestável do rei, Montaigne demonstrou uma grande coragem, mas também uma clareza de espírito de enaltecer, pois retratava na perfeição o que se passava na corte, naquela altura. Ainda assim, podemos perfeitamente afirmar que a frase não se esgotou nessa época. Ainda hoje ela continua a fazer sentido, pois, como vinha dizendo, na minha opinião, vivemos hoje numa sociedade que é amplamente influenciada pelas aparências, pelo consumismo e, acima de tudo, pela ostentação. Um alto cargo, um bom carro e uma conta recheada são mais do que suficientes para garantirem o respeito e a admiração daqueles com quem se lida. Contrariamente, humildade, simplicidade e justiça no tratamento com o próximo não parecem ter qualquer valor nessa equação. 

É aqui que entra de novo a frase tão certeira de Montaigne. Por mais poderoso e rico que se seja, por mais reputada profissão que se pratique, tudo isso não vale nada se não for acompanhado por um conjunto de valores que orientem essa prática. Todos somos iguais e não é por alguém ser rei de alguma coisa ou de alguém que vai deixar de ser julgado pela sua conduta moral. Isto porque, apesar de tudo, ainda há quem consiga perceber quem verdadeiramente merece o seu respeito, quem deve verdadeiramente ser admirado. Contra todas as expectativas, ainda são alguns aqueles que sabem que vivemos numa verdadeira feira das vaidades e que não deixam que isso tolde o seu julgamento até porque "até no mais alto trono, é um rabo que se senta".

Liberdade, por Fernando Pessoa

E porque hoje é sábado, sinto-me livre!

 

 

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Liberdade

 

Ai que prazer 
Não cumprir um dever, 
Ter um livro para ler 
E não o fazer! 
Ler é maçada, 
Estudar é nada. 
O Sol doira 
Sem literatura.


O rio corre, bem ou mal, 
Sem edição original. 
E a brisa, essa, 
De tão naturalmente matinal, 
Como o tempo não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta. 
Estudar é uma coisa em que está indistinta 
A distinção entre nada e coisa nenhuma. 

Quanto é melhor, quando há bruma, 
Esperar por D. Sebastião, 
Quer venha ou não! 

Grande é a poesia, a bondade e as danças... 
Mas o melhor do mundo são as crianças, 
Flores, música, o luar, e o sol, que peca 
Só quando, em vez de criar, seca. 

O mais do que isto 
É Jesus Cristo, 
Que não sabia nada de finanças 
Nem consta que tivesse biblioteca...

 

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